{"id":5940,"date":"2020-11-10T11:20:45","date_gmt":"2020-11-10T11:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.brindice.com.br\/blog\/a-construcao-de-identidade-no-facebook\/"},"modified":"2020-11-10T11:20:45","modified_gmt":"2020-11-10T11:20:45","slug":"a-construcao-de-identidade-no-facebook","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.brindice.com.br\/blog\/a-construcao-de-identidade-no-facebook\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o de identidade no Facebook"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos em um mundo de mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas no \u00e2mbito sociocultural. Pode-se afirmar que temos hoje mais formas de comunica\u00e7\u00e3o do que em qualquer outro momento da hist\u00f3ria. No entanto, muito mais do que simplesmente classificar os novos ambientes de produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, devemos tomar essa produ\u00e7\u00e3o como ponto de partida para compreender a sociedade contempor\u00e2nea. Em um mundo norteado pela cibercultura e pela sociedade do consumo, em que os meios de comunica\u00e7\u00e3o contribuem para modular e modelar pr\u00e1ticas identit\u00e1rias, evidencia-se uma parcela significativa de estudantes universit\u00e1rios que, por meio da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados em redes sociais digitais, compartilham seus modos de ser e viver. Nesse texto, descrevo como tenho desenvolvido a investiga\u00e7\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o de identidades no Facebook por parte de jovens universit\u00e1rios de duas institui\u00e7\u00f5es de ensino superior da Grande S\u00e3o Paulo, com n\u00edveis s\u00f3cio-econ\u00f4micos contrastantes.<\/p>\n<p>O objetivo principal dessa minha pesquisa \u00e9 examinar a forma como alunos de cursos de Publicidade em dois centros universit\u00e1rios da Grande S\u00e3o Paulo modelam suas identidades e constroem o que estou denominando aqui como \u201ceu midi\u00e1tico\u201d, por meio da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados textuais e imag\u00e9ticos no site de rede social digital mais popular entre os brasileiros na atualidade, o Facebook. Selecionei alunos de uma universidade de S\u00e3o Paulo e outra de Guarulhos. A an\u00e1lise dos dados apresentados nos mostra que, apesar de serem jovens com faixas et\u00e1rias similares e de cursarem o mesmo per\u00edodo de curso universit\u00e1rio (terceiro e quarto semestre de gradua\u00e7\u00e3o em Publicidade e Propaganda), h\u00e1 discrep\u00e2ncias entre os perfis identit\u00e1rios dos grupos de alunos, principalmente no que tange \u00e0 forma como eles se apresentam em ambientes digitais com o Facebook. No entanto, tanto para os alunos de S\u00e3o Paulo como para os estudantes de Guarulhos, ocorre a vincula\u00e7\u00e3o dos bens culturais e midi\u00e1ticos \u00e0s suas identidades. Esse processo corrobora o entendimento das pr\u00e1ticas cotidianas de constru\u00e7\u00e3o de identit\u00e1ria. Esta constru\u00e7\u00e3o se d\u00e1, sobretudo, a partir do car\u00e1ter simb\u00f3lico associado a essas marcas e produtos. No caso dos alunos de Guarulhos, verifica-se a valoriza\u00e7\u00e3o muito evidente do pertencimento de cada um desses jovens a uma coletividade. Entende-se, nesse caso, que duas fun\u00e7\u00f5es est\u00e3o claramente entrela\u00e7adas: sociabiliza\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o. A primeira diz respeito ao pertencimento e \u00e0 intera\u00e7\u00e3o. Desse modo, fazer parte de performances coletivas \u00e9 \u201cn\u00e3o ficar de fora\u201d, \u00e9 interagir com os pares refor\u00e7ando la\u00e7os sociais. J\u00e1 no caso de alunos de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 tra\u00e7os que foram buscados em produtos culturais midi\u00e1ticos espec\u00edficos &#8212; como um destacado de seriados televisivos norte-americanos &#8211;, al\u00e9m de fotos de obras de arte e de retratos fotogr\u00e1ficos efetuados no exterior. Curiosamente, o uso do Instagram e de aplicativos de geolocaliza\u00e7\u00e3o como o Foursquare s\u00f3 ocorreu no grupo de S\u00e3o Paulo e n\u00e3o entre os alunos de Guarulhos. Os registros revelam mais fortemente a cuidadosa constru\u00e7\u00e3o de perfis identit\u00e1rios individuais, talvez como forma de se tornar atraente para os pares. Atrelar-se de modo t\u00e3o vis\u00edvel a produtos culturais mais elitizados no Facebook \u00e9 uma clara estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria comum aos alunos deste grupo.<\/p>\n<p>No sentido de problematizar ainda mais meu objeto de pesquisa, foi efetuada uma nova rodada de observa\u00e7\u00e3o. No entanto, muito mais do que simplesmente monitorar todo o conte\u00fado publicado em seus respectivos murais do Facebook, elegi um novo prisma de observa\u00e7\u00e3o. Em virtude das recentes manifesta\u00e7\u00f5es sociais que se desencadearam por todo o Brasil, buscou-se analisar de que forma os jovens observados se manifestaram no Facebook para expor opini\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es. Diferentemente de outras grandes mobiliza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que j\u00e1 ocorreram no Brasil, os manifestantes de agora n\u00e3o t\u00eam apenas uma exig\u00eancia, como elei\u00e7\u00f5es diretas ou o Impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Dessa vez, vemos produtos culturais sendo apropriados pelas pessoas nas ruas, como a m\u00fasica da banda O Rappa (\u201cVem pra rua\u201d), utilizada em um filme publicit\u00e1rio da marca italiana montadora de autom\u00f3veis FIAT e com o mote da Copa do Mundo, e que virou uma esp\u00e9cie de hino desses levantes. Ou ent\u00e3o a m\u00e1scara branca do grupo \u201cAnonymous\u201d, sendo utilizada como s\u00edmbolo central, ocultando rostos de muitas pessoas. Al\u00e9m da utiliza\u00e7\u00e3o de cartazes com frases de protesto e alguns dizeres bem humorados que marcam a pecualiaridade e as multiplicidade dessas manifesta\u00e7\u00f5es atuais.<\/p>\n<p>Pudemos perceber semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as quanto \u00e0 forma como os dois grupos observados se apropriaram da plataforma Facebook para expressar percep\u00e7\u00f5es acerca de acontecimentos s\u00f3cio-pol\u00edticos, como a mobiliza\u00e7\u00e3o que lotou as ruas em v\u00e1rias cidades do Brasil. Em ambas as comunidades, houve um apoio claro pelas manifesta\u00e7\u00f5es. No entanto, foram notadas diferen\u00e7as que descrevo abaixo. No grupo de alunos de Guarulhos, notou-se um envolvimento mais passional na forma como os estudantes enxergaram as manifesta\u00e7\u00f5es. Um dos estudantes, que \u00e9 fot\u00f3grafo, foi \u00e0s ruas para captar imagens da popula\u00e7\u00e3o de Guarulhos e depois compartilhar mais de 60 fotos em seu mural do Facebook. J\u00e1 no grupo de alunos de S\u00e3o Paulo, pelo fato de citarem nomes de pol\u00edticos brasileiros, al\u00e9m de outros conte\u00fados da se\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de websites e alguns deles terem relembrado momentos do regime ditatorial no Brasil, nos leva a crer que h\u00e1 nas entrelinhas dos discursos um olhar mais politizado dos acontecimentos. No entanto, n\u00e3o ficou evidenciado que algum aluno tenha ido pessoalmente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es. Isso nos leva a crer que essa aparente consci\u00eancia pol\u00edtica demonstrada nos conte\u00fados dos alunos de S\u00e3o Paulo seja uma estrat\u00e9gia em tentar demonstrar uma falsa ret\u00f3rica em seu mural do Facebook. Um dos alunos de Guarulhos n\u00e3o apenas foi \u00e0s ruas, como tamb\u00e9m registrou por meio de fotografias.<\/p>\n<p>Partindo desse olhar, podemos explorar os rastros digitais desses jovens estudantes de Publicidade n\u00e3o apenas como evid\u00eancias atreladas \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos ou \u00e0 previs\u00e3o de padr\u00f5es comportamentais. As redes onde eles se inscrevem n\u00e3o s\u00e3o entendidas como a teia que os captura, mas a trama que emerge das a\u00e7\u00f5es que lhes deram origem e que as modificam em retorno. Observar, compreender e descrever essas tramas \u00e9 produzir um conhecimento sobre um fen\u00f4meno social qualquer e, ao mesmo tempo, reinventar um espa\u00e7o pol\u00edtico. O objetivo desta minha mirada foi entender aspectos da comunica\u00e7\u00e3o nos sites de redes digitais e discutir como determinados sujeitos sociais produzem conte\u00fados em sites como o Facebook. Meu prop\u00f3sito foi demonstrar como se evidencia um processo auto-reflexivo atrav\u00e9s do qual os usu\u00e1rios ressaltam e tornam p\u00fablico determinados aspectos de suas identidades. Ficou muito vis\u00edvel para mim que esse processo \u00e9 necessariamente voltado para o olhar do outro e requer uma negocia\u00e7\u00e3o com ele de modo a obter uma aprova\u00e7\u00e3o daquele conte\u00fado. Neste sentido, a expressividade do usu\u00e1rio no ciberespa\u00e7o, combinada com suas caracter\u00edsticas simb\u00f3licas, \u00e9 usada para atingir a coer\u00eancia almejada pelo ator social.<\/p>\n<p>Fonte: Administradores<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos em um mundo de mudan\u00e7as e transforma\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas no \u00e2mbito sociocultural. Pode-se afirmar que temos hoje mais formas de comunica\u00e7\u00e3o do que em qualquer outro momento da hist\u00f3ria. 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