Produtividade?

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Trilhões de linhas já foram escritas para ressaltar um dos principais entraves para o crescimento da economia brasileira, desde sempre: produtividade. Claro, há ainda uma lista com pelo menos meia dúzia de fundamentos que precisamos atender para mudar a nossa posição comparativa. Infelizmente, algumas dessas réguas têm mais de meio século e estão fora da realidade intrínseca da economia contemporânea. Exemplo? PIB.

A medida da força econômica de um país, pela soma do que produz, consome e investe em 365 dias, é um despropósito, pois exclui setores e itens não selecionados no processo metodológico, por definição. Basta ver o Brasil: sexta economia, mas em dezenas de outros fatores cruciais estamos entre os últimos da fila. E a lista não é de supérfluos: saúde, saneamento, educação, homicídios, investimentos, qualidade, produtividade e por aí vai. Nesse contexto, estar na sexta posição como maior economia é uma piada ou uma injúria, conforme o caso.

Quando, nos anos 90, a ONU instituiu o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), foi para estabelecer um novo conjunto de réguas sociais, transversais às réguas econômicas mas que não prescindem destas. A contribuição tem sido enorme, especialmente para diminuir a prevalência ditatorial dos indicadores econômico-financeiros e, especialmente, obrigar governos e gestores públicos a considerar indicadores sociais e humanos nas decisões. Algumas estratégias e ações de órgãos internacionais e até nacionais, já consideram o IDH como fator relevante para definir suas políticas e a liberação de recursos. Mas ainda é pouco, muito pouco. O “fator humano” neste início de século 21, pela velocidade das mudanças e da imensa complexidade nas relações entre economia e sociedade, ganha dimensão galáctica, pois o capitalismo financeiro dominante já prova seus estertores.

A história é pródiga referência quando sobre ela deita-se o olhar em perspectiva e a avaliação é tridimensional. Do pré-capitalismo ao capitalismo financeiro do século 21, quase dez séculos de história fornecem munição farta para entender os mecanismos de dominação que vigem. E percebe-se que as linhas de forte esgarçamento do modelo apontam para mudanças que, mesmo sem bola de cristal, estarão apontadas até o final da década. Eu escrevi apontadas, o que não significa consolidadas. É fundamental considerar que as mudanças jamais ocorrem de forma repentina. O estudo mostra que existe uma engenharia própria nos processos, e uma mudança contém em seu DNA o gene da próxima geração, da outra mutação.

Quanto e como, mais com menos

E o que isso tudo tem a ver com produtividade? Tudo. A produtividade não é um enunciado econômico simples ou um fator de produção. Ela é a referência, ainda que simplificada, para medir “quanto e como” eu produzo e “quanto e como” eu gasto para produzir. As aspas são para salientar o reducionismo, que não é cabível na interpretação atual. Produtividade vai muito, muito além da simples quantidade física de recursos consumidos para produzir algo, e a sua relação quantitativa com o resultado obtido. Produtividade tem a ver com o complexo aparato humano para gerar resultados a partir de um conjunto de insumos. Mais: produtividade tem cada vez mais a ver com as habilidades e as competências humanas para gerar resultados a partir de cada vez menos insumos. Fazer mais com menos, certamente e não necessariamente numa equação meramente quantitativa.

As exigências humanas crescem na medida dos benefícios que podem ser obtidos, não das necessidades que precisam ser atendidas. Passar fome para perder peso é um exemplo clássico. Querer o último gadget não tem a ver com alguma necessidade específica, é uma manifestação do desejo – ou da vontade, como queira – para obter algum benefício emocional, social, econômico. E tudo isso tem a ver com acessos, ascensões e produtividade. Um agricultor chinês é atraído para o meio urbano pela oferta inicial de um ganho maior – para obter mais benefícios. Lá no campo, seu universo era normalmente pequeno e restrito, pela própria condição imanente. No novo universo urbano, carregado de informações, estímulos e escadas de acesso, os padrões de comportamento e consumo são modificados radicalmente. Claro, tudo é pensado e desenhado para gerar mais consumo, inclusive e especialmente no nível subliminar.

Novas bagagens essenciais

Diante desse novo contexto, os acessos são chaves de estímulo para querer mais. O pequeno salário da indústria fornece algumas destas chaves, antes desconhecidas ou pouco entendidas pelo outrora agricultor. Tais chaves são fortemente embaladas e emocionalmente condicionadas para buscar canais de ascensão: sociais, econômicos, emocionais, sexuais, intelectuais, transcendentais. Tais canais são quase infinitos. É quase insano isso. Mas é o que nos move desde sempre, com as exceções de sempre.

Com os acessos e ascensões delineados nas novas bagagens essenciais (sociais, emocionais, intelectuais e econômicas), o agora trabalhador urbano chinês começa a dominar a lógica do sistema: precisa aumentar e/ou melhorar a sua produtividade, para ampliar e diversificar os canais de acessos e ascensões. Esta é, em essência, a espinha dorsal da mudança da economia chinesa. Grosso modo, trabalhar mais horas é o primeiro passo. O segundo, intensificar o trabalho físico em cada hora para aumentar o resultado; o terceiro, organizar melhor o trabalho físico; o quarto, alterar os processos de trabalho; o quinto, melhorar sua performance física e mental; o sexto, melhorar os processos de trabalho a partir da melhora das performances física e mental/intelectual; o sétimo, mudar de função, atividade, trabalho, a partir do desenvolvimento de novas habilidades e competências; o oitavo, otimizar e intensificar todas as interfaces e incrementar novas habilidades e competências para melhorar a produtividade. Daí em diante, isso não tem fim, literalmente, e segue o mantra: sempre há o que melhorar.

Idiota grandalhão e bobalhão

Este quadro demonstra o fato: aumentar e/ou melhorar a produtividade humana é resultado direto do incremento quantitativo e qualitativo do aparato intelectual (educacional, informacional, lógico), do equipamento emocional (valores, equilíbrio, sociabilidade, adaptabilidade), da melhor performance física multidimensional (força, resistência, velocidade, flexibilidade, acuidade). Eu pessoalmente incluo nesta lista a infraestrutura espiritual (valores, crenças e fluidez intelectual), que tem a ver com a capacidade para lidar com o que denomino de intangível transcendental e que, crescentemente, ainda que vagarosamente, tornou-se uma demanda humana contemporânea. Aos “radicais islâmicos” que acompanham estas linhas, não tem a ver com religião e sim com consciência de si.

No caso brasileiro, para que o aumento da produtividade humana seja um fato, as condições são extremamente hostis. Apesar de todas as nossas potencialidades, cantadas em prosa e verso pelos governos, mídias e outras fontes de perfídias, temos só tamanho. Somos muito mais parecidos com aquele idiota grandalhão, bobalhão e que faz todo mundo rir, mas dele todos se aproveitam. Duro? Cruel? Nada, gente. Realidade bruta. Somos enganados ou nos enganamos com nossas pequenas ilhotas de sucesso, eficiência, êxito que, diga-se de passagem, são exuberantes. Mas são apenas ilhas, raramente arquipélagos. Somos tragados e drogados pela mística do futebol, da música, das artes, do malabarismo social, da versatilidade emocional. Meia dúzia de ícones da economia, forjam nossa improvável autonomia. O domínio ditatorial e imperial dos bancos, transformou-nos (governo e povo) em portentosos pagadores de juros, daí os crescentes, exorbitantes e escandalosos lucros. Nada mudou e não vai mudar, nem por decreto da Imperatriz ou a imposição do seu partido meretriz.

Somos hand made

Está enganado quem imagina cenário diferente. A própria mídia faz notável esforço para mostrar e demonstrar nosso fictício gigantismo. Somos grandes sim, mas naquilo que não gera valor. Historicamente somos exportadores de commodities. Nada mais. Exceções à regra não cabem, como a Embraer, pois 80% de uma aeronave é feita de insumos importados. Somos muito bons montadores de aviões. Claro, temos engenharia, design, mas das turbinas aos componentes menos complexos, está lá o made in qualquer país, menos Brasil. Somos bons mesmo no hand made, enquanto o mundo caminha para o made in brain. Somos ainda pobres artesãos num mundo movido pela tecnologia e automação, que exige um perfil humano cada vez mais distante do modelo mão-de-obra e mais próximo do cérebro-de-obra.

Estamos fadados ao eterno fracasso até pelo cansaço. Deitados eternamente em berço esplêndido, somos condicionados a ver só as maravilhas, a maioria fantasias. Nossa economia sofre os estertores da agonia, da falta de sintonia com um mundo em crescente distonia. Nossa engenharia social é um desastre nacional. Temos braços, pernas, espermas, mas não temos cérebros, mentes e empreendedores mais valentes. Estes são raros, num país que pune o sucesso, a riqueza, a prosperidade, a destreza. Aliás, destreza só é apreciada quando sinônimo de esperteza. E tudo isso vai bater em nossa produtividade e manter nossa passividade. As manifestações das ruas mostram isso, pelo atual domínio político dos quarteirões pelos valentões pagos a peso de ouro, por partidos, grupos organizados, encrenqueiros sintonizados. Compare isso com o que ocorre no exterior, ainda que por naturezas distintas.

O que eu descrevo aqui em linhas tortas é amparado por artilharia pesadíssima de dados e fatos enfáticos, muitos deles restritos a especialistas da economia, gestores da burocracia ou cérebros da academia. Eu me considero um pregador no deserto, mas não sou um inseto. Eu insisto, persisto. Sou agressivo e não sou permissivo. Nosso país está assolado pela permissividade sádica meticulosamente implantada na sociedade. Tudo é consumido como normal, preparando o terreno para a aceitação do desastre consensual. Não aceito. Sou um guerrilheiro social que atua intensivamente nas trincheiras digitais. Mas prefiro a posição de franco-atirador, um sniper altamente treinado que aprendeu a viver isolado, e fazer o meu trabalho gerar alta produtividade. Pra mim, pra você, pra sociedade, pra gerar prosperidade.

Este escrito é parte do meu esforço quase insano, sem causar dano. Quero provocar você e ao fazê-lo provoco a mim. É parte do meu exercício intelectual, da minha guerrilha digital. Quero sim transgredir, mas não agredir. Quero sim mudar, mas sem machucar. Preciso agir para não submergir. Vem comigo?

Fonte: Administradores

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